Enquanto namorava, costumávamos ir para as praias da Costa (Fonte da Telha, Praia do Rei, Rainha, etc.) mas depois de casarmos, optámos pelas praias da linha de Cascais e Guincho. Íamos com um casal amigo ou com os nossos padrinhos e por lá passávamos todo o dia, almoçando quase sempre no mesmo restaurante, onde era frequente encontrarmos um casal conhecido do padrinho. Era uma dupla estranha, com hábitos fora do comum. Não se davam com ninguém, viviam sós e tinham um daqueles caniches tipo "lulu" que não os largava nunca e que mais tarde percebi ser o único elemento normal da "família !!!
O Doutor "Hilário", chamemos-lhe assim, era um dentista que nunca ninguém via sóbrio, mas um profissional irrepreensível, aplicado e muitíssimo eficiente. Além disso, tinha um extraordinário jeito para a condução, levando-nos a suspeitar se a viatura, um velho NSU, não estaria equipada com "piloto automático" que a conduzisse sem a sua intervenção, já que mesmo a cambalear, enfiava-se no carro e conduzia-o com uma perícia incrível! Víamo-lo às vezes de longe aos zigue-zagues na estrada, mas depressa acertava a "agulha" e sem consequências de maior, para além de um ou outro susto que causava à Alicinha, chegavam sãos e salvos ao destino.

Esse amigo dentista, herdara um moinho transformado em habitação perto da Malveira da Serra, que mantinha fechado, desleixado, quase em total abandono. Sempre que nos encontrava, puxava da chave e insistia para que passássemos ali uns dias.
Num mês de Agosto cujo ano já não recordo, aceitámos e lá fomos os 5: eu, o meu marido, os padrinhos e o filho deles, um jovem de 18 anos. Lá nos instalámos na esperança de passarmos 2 semanitas em sossego, longe do reboliço da cidade. Tínhamos praia perto e a serra a 2 passos, podendo fazer passeios a pé, e nos dias mais ventosos,enquanto os homens tratavam dos arbustos, tornando o espaço mais agradável, nós aproveitávamos o sol, junto ao tanque que servia de piscina.

Como o casal era muito solitário, entendemos por bem convidá-lo pelo menos uma vez para almoçar connosco na casa que amavelmente nos cedera. Ainda me lembro da seca que foi esperá-los, empoleirados nos pinheiros que circundavam o moinho ou em pé nos bancos junto ao muro que vedava a propriedade, almoço pronto, estômagos a dar horas, olhos fixos na estrada e dos visitantes nem sinal! Acabaram por chegar já próximo das 3 da tarde e imediatamente nos apercebemos de que já não vinham sós ... "trazia também a cadela", como dizia o padrinho eheheh
Lá almoçámos todos, à excepção do filho dos padrinhos que não tivera pachorra para os esperar, almoçara sozinho e partira de moto para o Estoril onde a namorada o esperava. A nós cabía-nos uma árdua tarefa nos aguardava ... ajudar a curar uma ressaca.

Ressaca que não chegou a existir, já que depois de almoço, o Doutor Hilário começou servir-se de bebida atrás de bebida e a certa altura apareceu com uma máquina fotográfica que começou a disparar sugerindo, dirigindo-se primeiro à sua companheira Alicinha que devíamos vestir o bikini. Depois ... obviamente ... com o calor que fazia, por que eu não o fazia também???
Lembro-me que o fiz não tanto por vontade própria, mas porque os bêbados são tão insistentes que não adianta contrariá-los. E assim, durante toda a tarde, sob o olhar condescendente do meu marido, o aplicado "fotógrafo" disparou "n" vezes na minha direcção. Os homens, trocavam olhares maliciosos e incapazes de se conter, largavam gargalhadas, que felizmente eram abafadas pelo ruído dos motores dos carros e motorizadas que circulavam na estrada próxima.



O "fotógrafo" ia sugerindo diversas poses, enquanto tecia elogios aos meus atributos físicos, na altura com cerca de 25 anos, dizendo que resultaria dali um excelente trabalho artistício! Nunca tive paciência para aturar bêbados e nem sei como suportei ouvir tanta vez "olha o passarinho"!!! Ainda fiz alusão ao exagero de fotos e respectivos custos, mas ele sossegava-nos, dizendo que ele próprio faria a revelação, que só aproveitaria as melhores e nos daria cópias!!!


Algum tempo depois, fui ao seu consultório. Partira um dente em miúda e ele fez-me uma impecável correcção (implante-pivô) que hoje, 25 anos depois, continua perfeitíssima. Lembro-me de ter passado o tempo todo agarrada à cadeira aterrorizada, com a assistente (a Alicinha) ao lado a tranquilizar-me.
O melhor da estória: Quando lhe perguntei pelas famosas fotos, notei alguma atrapalhação e foi a Alicinha que me segredou que ele se esquecera de usar rolo na máquina ... ganda pulha!!! Agora até acho alguma piada, mas na hora fiquei capaz de o esganar!!!
Nota: Suponho que o "Doutor Hilário" já tenha falecido ... oxalá que onde quer que esteja continue a desfrutar das coisas boas de que tanto gostava :d)