domingo, 11 de fevereiro de 2007

Coincidências




Em passo lento, atravessava na diagonal o jardim, como fazia frequentemente. Renovado recentemente, apresentava agora espaços de diversão, devidamente organizados, muito mais delineados e convidativos do que o antigo “Jardim Constantino” de outros tempos.

A meio da tarde, numa Sexta Feira quente de Setembro, apenas 2 crianças brincavam, no espaço a elas reservado, junto ao escorrega enquanto mais 2 ou 3 se divertiam junto a um baloiço de madeira, sob o olhar vigilante de igual número de mulheres.

Em cada canto do jardim, viam-se grupos de homens, alguns de meia idade, outros mais idosos, uns absorvidos e envolvidos directamente num jogo de cartas, outros, em pé, estáticos, apenas observando, ou incitando de vez em quando os jogadores.

Numa zona mais recôndita do jardim, um idoso, meio curvado, com ar infeliz e olhar distante, tacteava com uma mão ora num, ora noutro bolso, à procura de algo, ao mesmo tempo que com a outra se tentava apoiar a um velho banco de madeira, em forma circular que havia ali próximo. Ao levantar ligeiramente a cabeça, pareceu-me ter os olhos húmidos. Aproximei-me dele. Sorri-lhe e disse-lhe:

- Olá, precisa de ajuda? Ao mesmo tempo, retirei a embalagem de lenços da carteira e estendi-lha, aceitando-a com a mão trémula. Era um homem alto e de feições e aspecto cuidado, parecia confuso, perdido. Olhou na minha direcção e, por instantes, pareceu-me consciente, embora se mantivesse calado, como que impossibilitado de articular palavra … diria que aflito.

Aquela fisionomia lembrava-me alguém que não conseguia identificar. Ajudei-o a sentar, sentei-me a seu lado e meti conversa.

- Então? Costuma estar por aqui? Mora aqui perto? Eu acho que conheço o senhor, mas não me lembro de onde, disse.

Levantou a cabeça, deixando ver o queixo que tremia, denunciando que o choro e o medo ameaçavam apoderar-se dele.

- Tenha calma! Se calhar não se lembra onde mora. A mim também já me aconteceu, sabe? E olhe que sou uma mocinha comparada consigo eheheheh

Pela primeira vez arranquei-lhe um leve sorriso e lá balbuciou:

- Vim a uma consulta e agora não sei para que lados fica a casa do meu filho!

- Mas isso resolve-se já. Como se chama o seu filho? Após alguns segundos em que me pareceu fazer um esforço para lembrar, disse:

- Júlio. Júlio Andrade.

- Ah! Júlio Andrade??? Então o senhor chama-se Artur não é? E veio sozinho à consulta? O senhor morava em Tomar, não era? Agora mora em Lisboa? Agora percebo. Eu conheço o seu filho. São muito parecidos. É médico num hospital aqui perto. Já há muitos anos que não sei nada dele. Mas, não se preocupe. Eu localizo-o e levo-o até ele, sim?

Conhecera Júlio havia mais de 15 anos, quando ele viera trabalhar para o hospital em frente do escritório da Delegação do jornal onde eu desempenhava funções administrativas. Costumávamos almoçar em grupo, num restaurante perto e chegámos a organizar passeios e convívios, aproveitanto as vantagens promocionais da agência de viagens, a uns passos dali, propriedade do dono do restaurante, o Senhor Tomás. Tornámo-los logo Amigos. Júlio era, na maior parte do tempo, um homem alegre, brincalhão, divertido, sempre pronto para uma boa piada ou anedota marota e tinha um excelente sentido de humor. Daquele tipo de pessoas de quem facilmente se gosta.

No entanto, frequentemente assumia uma pose altiva, arrogante, revelando presunção ou mesmo soberba e nesses momentos ficava intratável. Gostava de ser bajulado e havia no grupo quem quase se submetesse a ele, o que o envaidecia. Irritava-se com quem expressasse opinião divergente da sua e não se coibia de tecer comentários depreciativos, por vezes brejeiros. Chegava a ser indelicado e algumas vezes humilhava as pessoas.

Era opinião geral que Júlio tinha um feitio difícil, mas o seu quase constante bom humor e a função de líder no grupo, tornava aceitável a sua faceta menos sociável. Atribuíamo-la ao excesso de trabalho e de certa forma tolerávamos o seu mau génio.

Embora pouco tivéssemos em comum, tanto no campo social, como profissionalmente, aproximámo-nos um do outro e tornámo-nos intimos. Desagradava-me a sua excessiva auto-confiança que fazia questão de sempre demonstrar, a forma como se vangloriava e relatava episódios envolvendo mulherio e o modo como exagerava a sua masculinidade, querendo dar a ideia de um grande garanhão.

Durante mais de 4 anos, o grupo, constituído por ele, 2 enfermeiras suas colegas, 1 auxiliar de acção médica, 1 funcionário bancário, 1 educadora de infância e eu, organizou e participou em vários convívios e uma vez por ano, era obrigatório um passeio.

Um dia, sem qualquer explicação, Júlio afastou-se do grupo. Raramente o víamos, andava cabisbaixo, emagreceu cerca de 15 kg no espaço de um mês e remeteu-se a absoluto silêncio. Não havia dúvida de que algo muito grave o preocupava, mas recusou-se sempre a partilhá-lo connosco. Inicialmente, os Amigos preocupados, tentaram entender a repentina mudança, mantinha-se calado e reagia mal a perguntas, repudiando quantos se tentavam aproximar.

Manifestações de pasmo e preocupação foram sendo esquecidas à medida que surgiam novos temas de conversa, uns e outros mergulharam nos seus próprios problemas, e pouco a pouco todos se afastavam ficando apenas eu que, talvez por ingenuidade ou teimosia entendia poder e dever prestar-lhe apoio. Acreditava que o seu ar arrogante apenas camuflava uma enorme fragilidade que eu tinha captado desde o início. Talvez tenha tocado o meu instinto maternal e, durante todo o tempo em que ele se dizia na fossa, mantive-me por perto, sempre disponível, ignorando e relevando todos os seus insultos e aquele enorme e constante azedume.

Mantive-me sempre presente. Mandava-lhe mensagens carinhosas, convidava-o para almoçar a que ele respondia quase sempre com um irrefutável NÃO! Duma forma subtil, fazia-me acusações, chamando-me cusca, fingida e hipócrita, fazia alusão ao seu superior nível social, como suporte à afirmação de que não precisava de conselhos de ninguém, muito menos de alguém como eu. Tinha atitudes contraditórias, sendo que tão depressa se mostrava agressivo e orgulhoso, como podia de repente, tornar-se dócil e humilde, mostrando-se grato pela minha Amizade.

Algumas expressões tipo “não te enxergas?”…”não preciso dos teus conselhos” atingiam-me, na alma, como pedradas que apenas ia tolerando porque alternavam com períodos de manifestos desabafos de infelicidade, lamúrias, choro e alguns pedidos de desculpa, à mistura com palavras de gratidão. Pouca a pouco acabei por perceber a causa do seu estado e se tentava minimizar o facto, no sentido de o ajudar a erguer, levava logo com uma enxurrada de palavrões.

À medida que ia saindo do estado que ele próprio classificou de “lama” e “merda”, ia aumentando a arrogância para comigo, culminando com o dia em que me maltratou verbalmente, acusando-me de só querer saber da sua vida, dirigindo-me palavrões e desligando-me abruptamente o telefone.

Tinham passado quase 10 anos! Eu mudara de emprego e apenas via esporadicamente 1 ou 2 Elementos do grupo. Durante meses mantive a esperança de um gesto ou uma aproximação, mas em vez disso soube que se referia a mim como “intrometida” …“cusca” e “hipócrita”, pelo que acabara por excluír o seu nº da minha lista de contactos e tentara esquecer alguém que não merecia nem sequer ocupar o meu pensamento.

Agora, o Senhor Artur, seu pai, ali estava, indefeso, confuso, eventualmente portador de doença de Alzheimer ou de outro qualquer síndroma de demência. Havia necessidade de avisar e sossegar o “arrogante doutor” de que nada de muito grave lhe tinha acontecido. Provavelmente já teria dado pela demora do Senhor e estaria ansioso.

Carinhosamente, pedi ao Senhor Artur que me deixasse examinar-lhe os bolsos e descobri um pequeno papel amachucado onde se viam 2 números rabiscados … “filho Júlio”… “filho Álvaro”. Retirei o meu tm da carteira, copiei o primeiro número … respirei fundo e … liguei. Ia enfrentar de novo a fera:

Demorou alguns toques a atender. O modo como o fez, levou-me a crer que ainda retivesse o meu número ou que eventualmente o tenha memorizado, já que de imediato ouvi:

- Diz, rapariga! Olha, liga-me outro dia, hoje estou a braços com uma grande chatice! Não te posso atender … desligou!

Apesar de não me surpreender, fiquei imóvel, incrédula por alguns segundos. Continua exactamente igual a si próprio! Repeti a chamada. Depois de 2 ou 3 palavras gritadas e dirigidas a mim, lá me permitiu falar.

- Júlio, sei o que se passa e calculo que estejas aflito … não me deixou continuar:

- Lá estás tu, sempre com a mania que sabes tudo acerca de mim! Foi a resposta dele. Enfureci-me e levantei também o tom de voz:

- Olhe, senhor doutor, encontrei casualmente o seu pai. Ele está bem, apenas um pouco confuso … está aqui comigo e preciso que me diga onde lho posso ir levar. Ficou calado por um momento e quando retomou o discurso, agora em tom mansinho, apenas o deixei dizer:

- Estou a trabalhar … no hospital.

- Então dentro de 15 minutos estou aí, espera-me ao portão. Disse-lhe.

Seguiu-se um curto trajecto de táxi, posto o que ajudei o Senhor Artur a sair, depositei-lhe 2 beijinhos na face, ao memso tempo que me sorria, e enquanto ele percorria a curta distância que o separava do filho, meti-me de novo no taxi e pedi ao motorista que me levasse rápido dali.

Moral da estória:

1 - Parece que afinal sempre há confidências;

2 – Há pessoas que não merecem nem o nosso desprezo.

(misto de real e ficção)

12 comentários:

Pepe Luigi disse...

Bomita história em que a solidariedade se sobrepõe à ingatidão.
Afinal tb tens muito geito para escrever.

Um beijinho
do Pepe.

Fallen Angel disse...

Curioso em saber onde começa a ficção e termina a realidade. Poderia dizer muito mais, sabias?..

Deixo-te um beijo.. e um sorriso.

Laura disse...

Acredito que fizeste isso por bem, continua que é o que conta..Quanto a Julios ainda vais encontrar muitos pelo caminho, mas não te rales moça, o fazer bem é a melhor coisa que nos pode acontecer.. Linda história que acho eu nada tem de ficção....
Gosto de ti e já agora pergunto......Que tal a menina hoje? O Domingo e o sábado deram para aguentar é? Eu e a pascoalita também sofremos da mesma demência chamada Domingos e sábados de tarde ahhhhhhhhhhhh, ams se nos ajudarmos as cosias passam.. Bonito o teu texto..beijinhos pa ti da laura..

Laura disse...

Então moça, já tamos bem de tudo? Continuemos a treta do fim de semana.. Trabalhas? Eu estou em casa tenho 3 filhos marido e um ão ão o shaka rotweiller traçado de labrador, é enorme e um amor..já sabe que eu não ouço e defende-me contra tudo e anda sempre atrás de mim..Costuro para ganhar uns cobres que fazem falta.. beijinhos pa ti.

adrianna disse...

Obrigada, Pepe. Ler e escrever são 2 coisas de que sempre gostei. Acredito que posso melhorar.
1 beijo

adrianna disse...

fallen angel
Poderias? E por que não dizes? Sou toda ouvidos :-)

adrianna disse...

Olá, Laura :-)
Perguntas de trabalho? Claro, não sei fazer mais nada eheheh
Como muitas mulheres na nossa geração, tb eu sou uma "escrava" da casa e da família. Resta-nos a capacidade de fantasiar e sonhar e isso até sei fazer bem :-)

adrianna disse...

Ah! esqueci de dizer que tenho 3 homens em casa ... 1 pai e 2 filhotes grandes. Isso para além de vários habitantes de 4 patas que enchem a casa.

Pascoalita disse...

Um belíssimo texto. Gostei muito de ler. Fez-me reviver algumas experiências vividas. Fico à espera do próximo.

1 beijo

:-)

Laura disse...

Olá..eu tenho um pai e dois rapazes e uma moça, e um ão ão lindo, as tartarugas foram à vida porque eu nem sabia que elas hibernavam..resultado, foram hibernar no lixo. Os dois hansters um morreu de insolação, o claudio deu-lhe banho e deixou-o ao sol, só me restou fazer-lhe o enterro quando cheguei a casa..Que choradeira de todos, o outro inchou inchou e era ver o nuno com a pinça e a ver se saia o pupu por ali fora e ficava bom, mas já tinha uma vista com uma enorme nódoa..Não mais deixei vir bicharada para cá..
O shaka está porque o amo, senão..é uma companhia e tanto..E tás a ver, já são muitos....Beijinho para ti querida..

adrianna disse...

Obrigada, por partilhares comigo, laura.
Devo então deduzir que a tartaruga que foi parar ao lixo estava apenas hibernada? tb não sabia que elas o faziam eheh
Se tivessem direito a passagem pela morgue, como no mundo dos humanos, sempre lhe sobrava mais tempo para acordar, gelada, numa qualquer prateleira, ao lado de um monte de seus semelhantes. Aconte mais vezes do que possas supor eheh
Ratos, não, please! não me assustam,nem me causam repulsa, mas por mais amoroso que sejam, não conseguiria conviver paredes meias com um rato. Mais depressa aceitava a companhia dum sapo, sempre havia a esperança de um dia se tornar num belo príncipe eheh
Há quem tenha nos apartamentos coelhos, porcos e até galinhas.

1 beijinho

Laura disse...

Olá.. As tartarugas estavam na sala no habitat delas, àgua e sempre tratadinhas.. Um dia estavam moles no outro nem se mechiam, deduzimos que as bichas morreram, mais um dia e mal lhes tocavamos..não respondiam (coitadas) deviam ser umas 3 ou 4..Bom, que fazer? morreram acabaram. Lixo com elas com pena claro e alguma lágrimita à mistura. Passados meses vou a casa de uma vizinha que tinha lá num alguidar enorme com pedras dentro e àgua uma tartaruga, mas que senhora tartaruga.. só que a bicha não se mechia, e digo ..ó muié então a bicha tamém tá morta e há quantos dias? e ela..não laura, tá a
hibernar. Olho-a incrédula e peço que repita..Elas hibernam durante uns tempos, não comem nem nada.e eu aflita..ai que matei as minhas, ai que coitadinhas, minha nossa, chego a casa explico aos filhos, mas claro lá lhes disse que ao serem atiradas para o lixo, safavam-se e iam comendo folhas de alface, couve cenoura ou o que quisessem, e depois iam para perto da àgua.. Até lhes pedi de e já agora porque é que quando as comprámos a senhora da loja não teve a amabilidade de dizer que isso acontecia?