Estávamos em 1970. Alice, completaria em breve 17 anos. Tinha vindo da aldeia para fazer companhia aos padrinhos octogenários, que moravam num 1º andar no centro da cidade. Apesar de ser muito dedicada ao casal que também a estimavam, decorridos 3 anos começava a sonhar com um futuro melhor e ansiava agora alargar os seus horizontes.

Dias antes, acompanhara como habitualmente a madrinha à missa na velha capela que servia os paroquianos enquanto se procedia à construção da nova igreja local e à saída reparara num fragmento de jornal, meio amachucado, que empurrado pelo vento saltitava no chão à sua frente, deixando ver um pequeno anúncio dactilografado em letra miudinha, que lhe suscitou curiosidade:
Largou por instantes o braço da madrinha, deu um passo à frente e apanhou o papel do chão, guardando-o de imediato no bolso sem fazer comentários. Mais tarde explorá-lo-ia!
Logo que a oportunidade surgiu, retirou o pedaço de papel do bolso, desdobrou-o e leu-o:
Precisam-se:
Raparigas entre 16 e 20 anos
Boa aparência
Trabalho bem remunerado
Trata no local ******
Alice era uma garota muito comunicativa e logo que chegara à cidade, tinha feito amizade com as vizinhas do 2º andar, a Anabela de 9 anos e a Graçinha de 4 anos, que viviam com a avó. Sempre que lhe era possível, subia a escada de ferro das traseiras até ao 2º andar para conversar com a D. Ana, em quem depositava toda a confiança, tendo-se habituado a chamar também "avó". Também as miúdas desciam frequentemente para passar algum tempo com a amiga a quem chamavam "a menina lá de baixo". Com esta família passou na praia e no campo, alguns dos melhores fins de semana da sua adolescência.
Alice falara do anúncio à D. Ana e esta recomendara-lhe cautela, mas Alice estava decidida a ir sondar o assunto. O prédio ficava situado quase no vértice de união de duas ruas. A entrada, sem qualquer número de polícia visível, era uma abertura por baixo dum velho edifício com evidentes sinais de degradação, e consistia numa espécie de túnel escuro e húmido que ia dar a um pátio térreo igualmente escuro, nas traseiras de 2 quarteirões de velhos edifícios, onde desembocavam várias escadas em ferro ferrugento.
Era um local estranho e sinistro e só localizara através de informação obtiva na mercearia junto à capela que lhe era familiar. Apesar do aspecto, aventurou-se a entrar.

Depois de percorrer o interior do "túnel", atravessou o pátio e em passo decisivo subiu a escada de ferro que conduzia ao 1º. andar, ouvindo o ranger dos degraus sob os seus pés. Penetrou num espaço amplo, avistando inúmeras prateleiras cheias de frascos semelhantes aos usados em cosmética e/ou perfumaria, caixas e embrulhos de diferentes tamanhos e cores. Também no chão abundavam pilhas de caixotes em madeira, sacos em plástico e embrulhos de papel.
Um sujeito de meia idade, baixote e com mau aspecto, exibindo um enorme bigode (postiço (?)) que lhe cobria a boca e parte da cara, apareceu de repente, por trás de um dos caixotes. Dirigiu-se à entrada onde se encontrava Alice e sem dar tempo que esta dissesse uma palavra, em voz que denunciava falsa simpatia, indicou-lhe uma pequena porta num canto do armazém oposto à entrada, para onde ela se deveria dirigir.
Alice lembrou-se das advertências da D. Ana e de Rosarinho, a menina protagonista duma história que quase acabou em tragédia, num dos livros de Odette de Saint-Maurice que lera havia já algum tempo e lhe ficara gravada na memória.
Sem obedecer ao homem, perguntou em que consistia o trabalho, ao mesmo tempo que exibia o pedaço do jornal que acabava de tirar do bolso. O Homem fixou-a por instantes e, para alívio de Alice, disse não ser o patrão, que este estava ausente, pelo que deveria voltar mais tarde.
De regresso à rua, Alice afastou-se do local e entrou num pequeno café situado no R/C do último edifício duma rua perpendicular àquela onde ficava o velho prédio sem se aperceber que este ficava exactamente por baixo do velho armazém que momentos antes tinha abandonado! Ainda mal refeita do susto, sentou-se num banco ao balcão e pediu 1 café e 1 copo de água. O sujeito que a atendeu fixava-a sorrindo maliciosamente, deixando-a pouco à-vontade . Para além de Alice, apenas uma mulher com aspecto de alcoólica ocupava uma mesa na qual se via uma garrafa de cerveja.

Quando Alice começava a sentir-se um pouco descontraída, preparando-se para beber o café que o sujeito acabara de colocar sobre o balcão, viu abrir-se um pequeno alçapão, situado no fim do tecto por cima do balcão. Uma escada articulada apareceu na abertura trazendo um sujeito pendurado nela. Alice reconheceu imediatamente o estranho e antipático homem de bigode e estremeceu!!! Pareceu-lhe ver uma troca de olhares entre os dois homens, seguida de um sorriso que ela interpretou como traduzindo "combinação" ou "trama" !!! No mesmo instante olhou para a chávena do café e sem lhe tocar, saltou do banco e fugiu para a rua!!!
Provavelmente os dois indivíduos acharam este comportamento de Alice muito estranho, ou talvez não, já que cerca de 1 ano mais tarde constou na zona que o dito armazém havia sido selado, o material de cósmetica apreendido e o seu proprietário preso por suspeita de envolvimento em tráfico de drogas!!!
Pouco tempo depois, Alice foi contratada como "Babysistter" de 2 meninas, uma de 3 anos e outra de 6 meses, e inscreveu-se numa escola nocturna para continuar os estudos. Os tempos livres eram aproveitados para visitar os padrinhos e a família amiga do 2º andar, mantendo até hoje um carinho fraternal pelas duas irmãs.
(estória verídica ... narrada pela própria Alice)